“A
barata diz que tem
sete
saias de filó...
É
mentira da barata:
ela tem é uma só.”
(Cantiga
de roda)
Não é uma brincadeira ter começado o
post de hoje assim, porque essa cantiga é uma das epígrafes de um dos contos
que estão nesse livro. O livro da vez é... (Que rufem os tambores!) Sagarana!
Fichinha comentada:
Nome: Sagarana,
publicado em 1946, livro de estreia do Guimarães Rosa. Composto por 9 histórias
(contos, eu diria) que se ligam entre si no cenário, este no caso é o interior de Minas Gerais. Acaba por ter em sua linguagem certa poeticidade nos relatos
por ser tão minuciosos e detalhistas, além de misturar o real com o imaginário
do leitor. Nesse livro Guimarães é apenas o observador, não tendendo a nenhum
lado, mas abordando assuntos que causam reflexões. (Como curiosidade o nome é
um neologismo composto por “Saga”, que vem dos romanos, bruxa, mas que também
pode-se atribuir o significado lendas escandinavas, enquanto “-rana” vem do
tupi significando parecido a.) Obra pertencente a terceira fase do Modernismo,
que seria o chamado Pós-Modernismo, onde se destaca na prosa os contos e linhas
que demarcam os limites do real e do imaginário. (Acho que nem preciso dizer
que foi tipo um resumo das características que têm esse livro, né?)
Autor: João
Guimarães Rosa (1908-1967), mineiro que tinha certa paixão por animais,
inclusive os bois (estou destacando isso porque terá dois contos onde haverá
animais, não humanizados como nas fábulas, mesmo que com falas, sendo um sobre
bois.). Entra na faculdade de Medicina, acaba por trabalhar no exército e por
insistência de um amigo presta concurso para diplomacia onde é o segundo
colocado, sendo que no seu tempo livre estudava línguas (Conclusão, o cara é
muito gênio... É, eu sei...), depois de tudo e mais um pouco se inscreve em um
concurso literário e é então que sua carreira como autor começa.
Editora: Nova Fronteira (foi a que eu li, mas existem
outras editoras que já pulicaram esse livro)
Como são 9 contos falarei do livro
como um todo e um resumo bem breve de
como é cada um, mas não citarei as personagens porque são muitas e ficaria
muito extenso, ok?
A linguagem utilizada é o que chamam
de Rosiana, ou seja, um estilo próprio do Guimarães Rosa, onde utiliza a fala
do sertanejo, mas também usa seus próprios recursos poéticos o que acaba por
caracterizar o livro como uma prosa poética, além de utilizar palavras antigas.
Por isso que dizem que para entender a obra é bom ter certo domínio de formação
de palavras, porque ajuda a compreender um pouquinho mais essa formação.
Sobre as personagens pode-se
destacar a sua escolha peculiar, onde há vaqueiros, crianças, idosos,
feiticeiros, loucos e bêbados, pois cada um tem seus porquês. As crianças por serem
puras e plenas, os loucos e bêbados por terem um estado de consciência alterado,
enquanto os idosos são escolhidos por simplesmente terem experiências.
As epígrafes são bem marcantes nesse
livro, pois foram extraídas da tradição mineira, provérbios e cantigas, além de
serem síntese dos elementos centrais que o conto aborda, como por exemplo o
amor, bem e mal, bois, sertão e assim por diante.
Os contos narrados em primeira
pessoa são: “Minha gente” fala mais sobre o apego da fauna, flora e costumes
mineiros do que de uma história propriamente dita, onde aborda casos de amor e
articulação política. Outro também em primeira pessoa é “São Marcos” que conta
o caso de feitiçaria (aí entra a parte do místico do sertão) que acaba chegando
momentaneamente o protagonista o qual acaba por aprender com toda essa
situação. O último em primeira pessoa é o “Corpo Fechado”, este conta a
história de valentões do sertão que tornam-se imbatíveis, porém com forças
sobrenaturais pode acontecer reviravoltas (também retrata o místico).
Os demais contos são em terceira
pessoa, o que torna o narrador um observador. Estão nessa parte os contos: “O
burrinho pedrês” e o “Conversas de bois” tem como foco os animais, mas estes
não são humanizados, apenas possuem voz para dizer o que pensam como animais
mesmo. No conto do burrinho se destaca a ruptura cronológica e um ritmo que
acompanha como se fosse o ritmo do andar do burrinho. No outro conto já tem uma
alusão ao mito do Ícaro e tem a luta do bem e do mal.
Ilustração do mito do Ícaro
“Sarapalha” conta em terceira pessoa
já evidencia a miséria física e psicológica dos doentes. “A volta do marido
pródigo” é sobre as malandragens de um homem que está envolvido no cabo
eleitoral e acaba por vender sua esposa e depois tenta recuperá-la de graça. “O
duelo e A hora e vez de Augusto Matraga” envolvem perseguições, (Sendo esse
último conto cobrado também na Unicamp) o primeiro fala sobre destino, as
alegorias da fatalidade, mas o embate em si não ocorre, enquanto o segundo e
último é sobre três fases do homem para ir de encontro ao bem, primeiro
degenerado, depois pagando penitências e ao final redenção e transformação. Acaba
por fechar o tema do primeiro tornando o livro de certa forma meio cíclico. Além
disso, se destaca em penetrar nos pensamentos das personagens.
Enfim, isso foi tudo resumidinho,
sei que não parece, mas é que são muitos contos, muitos detalhes e tentei só destacar
o principal, mesmo, mas enfim espero que tenham gostado e até a próxima
leitura!



0 comentários :
Postar um comentário